quinta-feira, 27 de abril de 2006

Uma Estória de Mulher


Era uma vez, uma mulher, num dia de TPM, num dia chuvoso, com brigas, brigas com os outros, brigas consigo mesma. Disse ela:

Eu sou uma perdedora! Acordo todos os dias triste e emburrada com minhas escolhas. Triste por estar triste, fraca e vitimizada. Mas não consigo romper com o sentir ser violada a toda hora pelo masculino agressivo, que se acha melhor do que eu; que não percebe detalhes, faz que não percebe; que é insensível às mudanças lunares; que joga e joga para ganhar; que faz as coisas dizendo pensar na mulher, mas no fundo, faz para manter o reinado patriarcal.

Sou um feminino que não existe!
Sou gorda, mesmo magra
Sou rígida, até quando me movimento
Sou brava, inclusive calada
Sou falante, até quando nada quero dizer
Sou culpada, porque sou mãe
Sou bruxa, porque sou madrasta
E se não sou mãe e nem madrasta, sou egoísta
Sou fracassada, porque não sou rica
Ou se sou, sou fracassada, porque nada produzo

Dizem que sou mulher e nada compreendo do masculino, não o apoio, não o permito, só o cobro! Sou só uma mulher...

AQUILO que vale a pena, mas é desprezado!
Que é desejado, mas não deseja.
Que deve ser o recipiente, o continente, o útero, mas é o arquivo redondo, a lata de lixo das culpas e erros do mundo. A mulher leva o homem a comer o fruto proibido. É a pecadora que o faz pecar! E por isso tem que se redimir!
Na redenção alcanço um status de AQUELA...
Aquela que tem que ser para o outro; que limpa a poeira, para o outro respirar melhor; recolhe o saco vazio de pão largado na mesa; põe a mesa, mas come sozinha; serve, mas não é servida, a não ser que peça com cuidado para não errar o momento e o jeito de pedir.
E ao ser tocada, deve, tem que, ser MULHER o suficiente, e agradecer o homem ao lado disposto a acariciá-la, mesmo que durante o dia carinho nenhum esteve disponível.
Por fim, AQUELA deve agradecer o que recebe sempre. Pois quem lhe faz, por pouco que faça, merece as honras e o paraíso! E AQUELA vai para o inferno com uma dívida enorme! Assim canta Chico Buarque:

Mirem-se no exemplo dAQUELAs mulheres de Atenas.
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas...
quando eles embarcam,soldados
elas tecem longos bordados...
quando eles voltam sedentos
querem arrancar violentos
carícias plenas, obscenas...
elas não têm gosto ou vontade
nem defeito nem qualidade
têm medo apenas...
Vestem-se de negro
se encolhem, se conformam e se recolhem...
secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas...

MULHER, Esta é a nossa ferida que sangra! E isso foi nossa escolha! Escolhemos ser dona de casa, casar, ser mãe, trabalhar. Só não escolhemos ser mulher! Esta é a nossa ferida que não pára de sangrar! E será a nossa cura, se nos respeitarmos, nos amarmos, nos transformarmos, e resgatarmos o real sentido e vida FEMININOS. A começar pelo sangue!
Na antiguidade, nos cultos à Grande-Mãe, o sangue era a oferenda, pois propiciava a fecundação da terra e das mulheres. Observavam que elas ao gestar e dar leite suspendiam a menstruação; imaginavam que o embrião era construído do sangue, assim como o leite seria o sangue transformado.
O sangue que corre, escorre do mistério feminino. É o sangue da transformação!
Nasce-se em meio ao sangue. E o nascer é doloroso, cortar o cordão umbilical é sangrar. Assim o é, a cada ciclo de transformação que se fica entre a vida e a morte. Há que se conhecer e se entregar aos ciclos do sangue, o CIO DA TERRA, cantado por Chico e Milton!
Debulhar o trigo
recolher cada bago do trigo
forjar do trigo o milagre do pão
e se fartar de pão.
Decepar a cana
recolher a garapa da cana
roubar da cana a doçura do mel
se lambuzar de mel.
Afagar a terra
conhecer os desejos da terra
CIO DA TERRA, a propícia estação e fecundar o chão.

Viver sob a regência do CIO é reconhecer as várias deusas que existem em nós, com todos os seus poderes e humores:
Afrodite, o amor, mãe de EROS e ANTEROS
Deméter, mãe da agricultura, furiosa, faz a terra secar
Perséfone, a filha, mora nas trevas com Hades e na terra com sua mãe
Hera, a esposa fiel, mas ciumenta e vingativa
Hécate, a velha sábia dos melhores e dos terríveis mistérios
Ártemis, protetora dos animais e do parto, escolhe não ter filhos
Atená, nascida do pai, intelectual e guerreira, por vezes sanguinolenta.

É preciso ver os lados bondosos e terríveis do feminino que vive, não tão às claras, no lusco-fusco de uma consciência, ora na manipulação silenciosa, ora na sedução da sereia, ora no chilique histérico, ora na dose certa de uma voz suave, firme e determinada.

Todo dia ela faz tudo sempre igual...
Afaga a terra
conhece os seus desejos
bebe do vinho tinto de sangue
sem pedir ao mundo masculino, Pai, afaste de mim este cálice.
Tece um longo bordado
Tira da cana o mel
Tem gosto e vontade
Tem defeito e qualidade
É a propícia estação
Transforma o trigo em pão.

Fernanda Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

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