segunda-feira, 22 de maio de 2006

Vítimas ou Culpadas?


Seated Bather 6, Renoir, 1883-1884

Parecem pesadas as palavras abaixo. Por vezes, elas reduzem, contradizem, ironizam e agridem os sentimentos que circundam o estar acima do peso. Mas a intenção é denunciar a dificuldade e a necessidade urgente de olhar a ferida com esforço, cuidado, confiança, responsabilidade e ESCOLHA. Em 2004, a Organização Mundial de Saúde definiu a obesidade como doença do milênio e como a primeira causa de morte evitável do mundo, por ser também origem de outras doenças como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e até certas formas de câncer. No Brasil, 40% da população está além do peso.


Culpadas pois não fecham suas bocas, são compulsivas. São teimosas, não resistem às comidas que sabem que lhes fazem mal, pois não gostam de fazer exercícios, são preguiçosas.
Culpadas pois comem demais. São exageradas, exibidas e falam alto, pois são os centros das atenções, ocupando os espaços com seus enormes corpos.
Culpadas por manipular e controlar os outros com a própria dor. São prestativas e boas ouvintes, entretanto, somente para os outros, pois não escutam sua própria voz e, muito menos, gritam-na ao mundo.
Culpadas pois são autodestrutivas. São rancorosas, não sabem expressar suas raivas, pois se expressam, tornam-se agressivas.
Culpadas porque são vítimas....

Vítimas de uma sociedade masculinizada e capitalista, onde corpos magros são vendidos e vulgarizados, restando um feminino aprisionado.
Vítimas de famílias desajustadas e psiquicamente desequilibradas, onde lhes entranham paradoxalmente o vazio impreenchível, restando-lhes sentimentos infantis, inseguros e depressivos.
Vítimas de uma herança corporal imperfeita, onde há erro nas comunicações cerebrais, restando às numerosas e volumosas células gordas.
Vítimas de uma desconexão desenfreada. Onde há o bem não pode haver o mal, onde há o feminino não pode haver o masculino, restando viver alternadamente o positivo e o negativo, sem integração, sem totalidade.
Vítimas porque são culpadas...

Não São Culpadas nem Vítimas,
ESTÃO!


As obesas ESTÃO reféns dos mundos arquetípicos dos pais, ora como filhas devoradas pela mãe-bruxa (o lado negativo do feminino), ora como as queridinhas do papai (o masculino negativo). Desses mundos, herdou-se expectativas e sonhos que não eram seus e emoções intoleráveis, que se confrontadas, geram culpa, intolerância à frustração e desejos de poder, por isso se tornam CULPADAS. Porém VÍTIMAS, posto que estas emoções reprimidas, somadas da rejeição, voltam-se contra o próprio corpo, aparecendo como raiva do seu tamanho redondo e culpa por ter comido demais, mais uma vez.
Na alma da obesidade persiste o desejo insaciável por um amor inatingível e incondicional, natural da primeira infância, que por vezes lhe foi negligenciado. Na falta desse amor, restam sensações de vazio, baixa auto-estima, insegurança, apatia e abandono, que foram e ainda são “comprados” pela substituição, recompensa, superproteção e oferecimento de mais e mais comida, indiscriminadamente.
Sob a regência negativa do matriarcal, costuma-se encontrar mães inconscientes da própria feminilidade e sexualidade; perfeccionistas, controladoras da vida de toda a família e que projetam na filha, sua vida não vivida, a qual ao começar a dar êxitos, aponta as frustrações dessa mãe, que magoada e ressentida defende-se, inconscientemente, impedindo a filha de crescer.
Mas se essas mulheres “crescem”, o fazem unilateralmente sob a progressiva perda cultural do feminino, e, a mercê do mundo patriarcal, que as aprisiona nos desejos do pai, sem reconhecerem o próprio corpo e sentimentos, inconscientes da própria desgraça.
Seu peso é o seu poder que esconde o seu frágil ser; fragilidade não suportável pela criança que essa mulher adulta obesa ainda não deixou crescer, exceto no corporal. No psiquismo, persiste uma menina-menino que deseja SER, mas teme, pois não o sabe fazer. E quando tenta, não sabe como e COME!
COME, COME e COME...Comendo, engole sem degustar: Amor e Ódio, Desejo e Medo, Proteção e Abandono, Carinho e Raiva, tudo vivido lado a lado, porém desconectado.
A comida torna-se foco da depressão, raiva, ansiedade e sexualidade reprimida e, um meio de controle do próprio destino, de desafio ao controle dos outros e da natureza.
A gordura revela o mal escondido, numa tentativa de mostrar que muito mais do que vítima de um destino sombrio, a sombra existe em si (no corpo) e é preciso reconhecê-la, abraçá-la, conversar com ela e criativamente transformá-la.
Então um dia a máscara precisa cair, senão a vida não passará de teatro. É preciso se ver no espelho, olhar a sombra além do corpo, sem no entanto, identificar-se com ela. É chegada a hora da mulher emagrecer. E emagrecer é suportar o conflito dos opostos e a dor da consciência até que o corpo renasça. A reeducação alimentar, o conhecer o alimento escolhido para ser ingerido e transformado no próprio ser (no corpo), e o exercício físico que faz o corpo movimentar, ensinando novas posturas de estar no mundo, ampliando o olhar para a troca dos mundos interno e externo, ao focar o ar que se respira, são condições essenciais para a transformação. E, precisam ser realizados, conjuntamente, com o arrumar da casa interior. Reconhecer que só é dona, e já é muito, de si mesma! Ver a bagunça, tirar o pó, abrir caixas entulhadas, ver as coisas como foram e como são. Ver o tempo que passou, deixando as roupas e sapatos que não servem mais, usando o que serve, combinando modelos e cores de um jeito próprio, mesmo que inspirado em outras figuras, mas sabendo que agora fazem parte das novas próprias ESCOLHAS.

“É libertar o espírito criativo masculino do ventre da mãe devoradora e libertar o espírito feminino do túmulo do pai.” É investir no autoconhecimento, buscando o saber dos profundos desejos do ser, mobilizando corpo e alma para realizá-los.

Fernanda Matos

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