domingo, 4 de junho de 2006

Como receber o Outro?

, Realizando Sonhos!

Estava eu, num domingo comum, sem querer cozinhar, sem querer fazer... queria receber! Aproximava a hora do almoço, a vontade de comer batia ao estômago... Resolvi almoçar num restaurante, era um do tipo self-service japonês. Havia uma fila enorme, e no fim dela uma moça com sua filhinha linda de uns três aninhos. Uma outra jovem moça, garçonete do restaurante, aproximou, brincou com a menina e cochichou algo para a mãe. As três saíram do final da fila e foram se servir na frente de todos. A atendente sorridente acompanhou-as com o prato que seria o da pequena, auxiliando a mãe a servi-lo. Por fim, a moça seguiu com a mãe e a filha até a mesa, onde acomodou o prato e a menina, desejando-lhes uma boa refeição. Fiquei encantada com a forma educada e disponível daquela moça, que observei se repetir em todos os seus atendimentos, ora com um senhor, ora com quem apenas lhe pedia alguma informação, ora organizando as mesas das comidas, ora servindo de intermediária do querer de outros tantos clientes. Sempre com um lindo sorriso no rosto. Após o meu almoço, não resisti e fui até a moça e lhe perguntei:
- O que lhe acontece que sempre atende as pessoas com um belo sorriso?
A moça respondeu:
- Primeiro gosto de atender as pessoas; segundo se eu estivesse no seu lugar, e quando estou, gosto de ser muito bem servida!
- Se você tivesse todas as condições favoráveis, qual seria o trabalho dos seus sonhos? Perguntei-lhe.
- Eu teria um restaurante. Como lhe falei gosto de estar com pessoas, de servi-las e gosto do trabalho com a alimentação.

Agradeci novamente os sorrisos de seu rosto e de sua alma. Fui embora pensativa.

É isso! Receber o outro, seja um paciente no consultório, seja um amigo ou parente em casa, seja um cliente, um turista no restaurante, na loja, no hotel, não importa, receber o outro é estar disponível!
Mas não se trata de uma disponibilidade apenas educada, é mais, bem mais!
Aquela moça está numa posição de disponibilidade para os próprios sonhos e para os sonhos do outro. Ela deseja ser dona de um restaurante, mas ainda não tendo condições para tanto, busca estar por perto, trabalhando na área de seu interesse: o atencioso atendimento ao público e a boa alimentação.
Assim, ensaiando uma “formatação” do comportamento de receber o outro, pode-se afirmar que estar disponível contempla quatro atitudes:
Primeiro, reconher os próprios desejos internos e profissionais, colocando o “céu” como o limite idealizado.
Diante da indiferença, da frieza, do imediatismo e do excesso de pragmatismo, está se perdendo a espontaneidade e a crença do sonhar. Muitas são as pessoas, que batem à porta do consultório, doentes não só fisicamente ou emocionalmente, mas doentes de alma... perderam-se no caminho da vida, nos sonhos pueris e não se reconhecem mais. Para sorte destes (pois outros tantos se paralisam nas lamúrias, apenas), iniciam um período de muitos questionamentos e alcançam novamente os próprios braços – retornam o olhar para o “Eu interior” e relembram dos sonhos de criança, do “Quando eu crescer, eu quero ser...”.

Segundo, expressar os sentimentos internos autênticos de auto-estima, confiança e satisfação, decorrentes da escolha dos próprios desejos.
Escutada a voz interior, faz-se necessário cantá-la ao mundo. O mundo está carente, apesar de consumista, pois ele necessita consumir além da matéria. Precisa comprar para gastar em uso próprio a autenticidade, a auto-estima, a confiança e a satisfação daquele que está lhe recebendo com toda a certeza do que se é, na profundidade e transparência do seu ser. Ninguém “cai” mais nas propagandas enganosas, muito pelo contrário, exige-se qualidade e coerência nos serviços e produtos.

Terceiro, Realizar Sonhos - os próprios!
Mesmo vivendo ainda sob as restrições materiais e operacionais, pode-se trabalhar em algo que promova aproximação gradativa daquilo que se sonha. Não desistir, não se corromper, não adoecer! Acreditar! Perceber o além dos fatos. Cada pessoa vem ao mundo com singularidades, instrumentalizadas com ferramentas capazes de construir os seus sonhos. Mas é preciso encarar a responsabilidade de usá-las corretamente e para o bem, no momento, local e com as pessoas certas.

Por último, observar o outro a sua frente, auxilando-o a identificar, comunicar e atuar no receber aquilo que ele deseja! Realizar Sonhos - os do outro!
Nem todo cliente tem a noção consciente dos desejos de seu coração... às vezes, intuitivamente, quer experimentar o diferente, vai tateando o escuro até encontrar o que procura. Um bom profissional que realmente recebe o outro, torna-se continente do seu interior. Observa como o outro está, anda, senta... escuta os desejos dele além das palavras que diz... e numa relação reflexiva, oferece o que ele precisa.

Essa é “fórmula”! Não é à toa que na fala popular e coletiva repete-se frases como:
“Me diga com quem andas que te direi quem és...”
“Tenha pensamentos bons e boas coisas acontecerão...”
“Boas ações geram bons resultados...”
“Cuidado com o que desejas, poderás realizar...”
E por aí vai.

Receber o outro é permitir-se ser uma rede... uma rede que conecta você com você mesmo... que conecta você com o outro... que entrelaça desejos, sentimentos, pensamentos, ações e realizações... que jogada ao mar, coerentemente no tempo e no espaço, pesca um bom pescado... que simplesmente, acolhe o outro, e permite que o outro desfrute de seu tempo de lazer, num tranqüilo balançar debaixo de árvores e sombras, com uma brisa beijando o rosto, num embalar do sono e dos sonhos...


Fernanda  Matos

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