terça-feira, 5 de setembro de 2006

O que esperar quando estamos Recém-Nascidos?


Muito se fala sobre o período da gravidez. O que é, como se configura nos seus três trimestres; as mudanças fisiológicas do feto e da gestante, com as suas mudanças hormonais; o turbilhão de emoções, repleto de ambivalências, de amor e de rejeição, de felicidade e tristeza, de desejos e de medos...
Muito se fala do parto. Os tipos de partos e suas questões orgânicas e sócio-culturais; quais as etapas fisiológicas e as transformações; como reconhecer os sinais que indicam que ele está perto e pronto para acontecer; como se ajustar melhor aos incômodos e dores, através de respirações e posições e massagens específicas; e ainda, como se portar nas questões burocráticas nos hospitais...
Muito se fala da amamentação, de como preparar os seios, fortalecê-los e limpá-los; das várias posições que podem ajudar o bebê na pega do bico; sobre massagens e empedramentos; de como ordenhar o leite, armazenar e doar; de quanto em quanto tempo dar de mamar...
Fala-se do papel do pai. Como executar as tarefas práticas, logísticas, administrativas; como ser o apoio inclusive emocional dessa mulher que estará vivendo mudanças constantes; fala-se já, mesmo que ainda pouco, dos sentimentos desse homem que não reina mais sozinho no coração de sua mulher, tendo que dividi-lo com um outro ser; de um homem que também está nascendo pai.
Porém, fala-se ainda muito pouco sobre como será essa nova constituição familiar no momento exatamente posterior ao parto, os três primeiros dias, a primeira semana, o primeiro mês, os três próximos meses, os três trimestres inicias. O Pós-parto!
Como é um momento de chegada de um “serzinho” encantador e apaixonante, cria-se a fantasia de que esse momento será privilegiado e repleto de felicidade, paz e harmonia... E a realidade se configura bem diferente , surpreendendo todos os envolvidos. È um momento de extremo cuidado dos novos espaços e papéis, seja no mundo cotidiano e prático, seja no mundo emocional, psíquico e inconsciente.
Agora existe um bebê que está assustado com tanta luz e ainda vai aprender a se comunicar, ora chorando de fome, de frio ou de calor, de desconforto, de medo, ora desejando ser acalentado, acariciado, protegido e amado. E assim, o bebê pode chorar de três em três horas, de hora em hora, ou num ritmo que lhe é todo próprio e não linear.
E a mãe apaixonada por seu filho e ao mesmo tempo exaurida dos esforços físicos e psíquicos do parto, também estará em aprendizagem de como ser mãe e de como é o seu bebê. E as emoções continuam turbulentas e ambivalentes: ter que cuidar e permitir-se ser cuidada, sem se infantilizar, afinal, agora é mãe, não somente filha e mulher. Há um alguém muito especial e totalmente dependente dos seus seios e do seu afeto – a mãe é o alimento orgânico, psíquico e espiritual do seu recém-nascido. E isso faz com que se durma pouco, e poucos minutos sobrem para cuidados básicos, tomar banho, e ir ao banheiro, alimentar-se sem o choro... afinal, o instinto e o sentimento visceral de proteção promovem um estado de alerta contínuo, resultando num outro estado de cansaço contínuo também. Faltam horas no dia; falta o trabalho profissional, temporariamente suspenso; falta a liberdade de ir até e somente à padaria; falta a independência... Somando a tudo isso, ainda acontece toda a vivência inconsciente, cujas palavras não alcançam, mas o corpo e o coração expressam, de um tempo primeiro quando essa mãe era a bebê, e estava sob o cuidado de sua mãe (a avó).
O recém-nascido pai tenta ver tudo isso o mais perto que pode, e é acometido por um sentimento enorme de responsabilidade: fazer esse filho sobreviver, junto com sua mulher, é não deixar faltar nada: é prover, prover e prover! Financeiramente e emocionalmente. E ele está só nessa jornada, porque a díade mãe-bebê é um novo ser. E sozinho precisa fazer as suas tarefas e as tarefas externas de sua mulher. Sobrecarregado também, sente a falta da independência, das cervejas com os amigos, do sexo com a mulher, do ir e vir descompromissado. Somado a isso, tem todo o seu inconsciente que fala corporalmente dos momentos de quando ele era o bebê.
E as avós, o que devem fazer? Ajudar sempre, sempre que solicitadas. São avós do bebê e mães dos filhos, então continuem a cuidar de seus filhos, que agora são pais, sem infantilizá-los e sem priva-los de aprender com os próprios erros e acertos. Porém essas vovós, também possuem suas experiências anteriores, de quando foi mãe dos seus recém-nascidos e de quando eram as próprias recém-nascidas.
Tudo muda! Tudo muda muito!!!!
Gestar é para sempre! Mudam-se os úteros - primeira a barriga, depois o lar e por fim o mundo!

Fernanda Matos
Texto publicado na Revista Terceiro Milênio

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