sábado, 4 de novembro de 2006

A Terapia do Jogo de Areia - Sandplay


Quantas pessoas realizadas e bem ajustadas no mundo perguntam-se: Onde ficou aquele sorriso, sonhos, sentimento, ou simplesmente aquele Eu feliz do início da vida? Muitas vezes, a vida seguiu o script imaginado; mas na maioria delas, a vida caminhou por outras trilhas e devido a velocidade da viagem, outras tantas estradas e sonhos ficaram para trás, esquecidas e abandonadas. E, no meio de um “dia chuvoso”, de uma pausa da correria da vida, o brilho daquelas estradas e sonhos esquecidos reluz no sentimento da falta – Falta o quê? O que foi abandonado?

Então, essas pessoas encontram no consultório, uma caixa de areia com miniaturas, imaginando ser somente uma atividade para crianças e se surpreendem ao descobrirem que adultos também a usam. Os ressabiados pensam não haver mais tempo para brincar. Os intrépidos se permitem viver o jogo, sem as palavras explicativas, mas tão somente com os olhos e o coração, enxergam imagens que pronunciam sentimentos de outros tempos: aquelas estradas esquecidas...

“Freqüentemente as mãos sabem como resolver uma charada
com a qual o intelecto luta em vão.” Jung

O ato de visualizar e traduzir emoção em imagem na areia ocorre desde os primórdios em várias culturas: os índios Navajo faziam cenários ritualísticos de cura, adivinhação e exorcismo; os Budistas do Tibet criam mandalas de areia para iniciação às práticas tântricas e contemplação; os aborígenas australianos usam a areia para criar cenas que os conectem ao mundo de onde tudo se originou; as crianças, ainda hoje, apesar da tecnologia dos brinquedos, fazem castelos de areias nos parquinhos.

Dentro da psicoterapia, o uso da areia teve sua origem na Inglaterra, com Margaret Lowenfeld, psiquiatra freudiana, que trabalhando com crianças, desenvolveu o método chamado: Técnicas do Mundo. Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, entregou-se à própria vontade de usar as mãos, a terra, a água e as pedras, construindo estruturas em miniaturas. Estimulada por Jung, Dora Kalff passou um tempo em Londres com Lowenfeld, conhecendo o seu método e transformando-no, sob o olhar analítico que pressupõe a tendência da psique a curar-se por si mesma, no Jogo de Areia ou Sandplay.

O Sandplay consiste do uso de caixas contendo areia, onde o analisando é convidado a criar um cenário, através da areia, da água e de objetos em miniaturas.

O espaço da caixa transforma-se num continente que recebe, de modo livre e protegido, a projeção de imagens, não induzida, da representação de conteúdos psíquicos, emoções profundas, fantasias e sentimentos reprimidos.b É um espaço sagrado, “temenos”, que acolhe, compreende e transforma energias destrutivas ou represadas em caminhos construtivos.

A areia, que foi um dia rocha, representa a sobrevivência diante da ação do tempo e das intempéries. É a própria matéria continuamente modificada. Por ser plástica, é um material de grande modelação, tanto pode estar mais aglutinada quando molhada, quanto escorrer pelas mãos quando seca.
As miniaturas, expostas em estantes à disposição do paciente, são dos mais variados tipos, desde os imaginários e fantasiosos às réplicas do mundo real: elementos de natureza mineral, vegetal, animal e humana; construções humanas; figuras míticas, etc.

Os cenários tridimensionais são construídos silenciosamente, sem interrupções no fluxo dos sentimentos, com mínima interferência do psicólogo, que acolhe as cenas e as registra em fotografias após as sessões. Só depois da composição de uma série de cenários e da reestruturação e fortalecimento do ego do analisando, é que a interpretação ou troca verbal se faz presente.

Assim, o jogo de areia é um método espontâneo, lúdico, dinâmico e simbólico, baseado no trabalho criativo, não racional, que atinge o nível pré-verbal da psique, através da materialização da trama interna do indivíduo, permitindo-no lidar de forma concreta com os símbolos constelados no inconsciente. É um catalisador da vivência protegida dos conflitos, aproximando aspectos opostos, ou parte dos mesmos, que são conduzidos ao centro, levando à experiência do todo.

O Sandplay tem ótimos resultados quando empregado em pacientes com dificuldade de expressão através da fala, ou que se encontram numa fase cuja palavra está repetitiva e aprisionada no superficial do mundo cotidiano, dificultando o acesso às questões mais interiores. É também utilizada em momentos chaves, como por exemplo, na escolha profissional de um jovem ou de um adulto que deseja trocar de profissão. Seja qual for o caso, em todos eles, o jogo de areia acelera o processo de autoconhecimento e cura, transformando a sintomatologia ou queixa inicial do analisando. É uma possibilidade concreta de construir com as próprias mãos aquelas trilhas ainda não trilhadas.

Fernanda Matos
Texto publicado na Revista Terceiro Milênio

Nenhum comentário:

Postar um comentário