sábado, 23 de dezembro de 2006

Pai


Para compreender melhor o texto, ressalto que ao se falar de mãe e pai, intenciona-se falar na verdade de arquétipo de mãe que rege a primeira fase do desenvolvimento humano, a fase matriarcal, e o arquétipo de pai que rege a fase seguinte, a do patriarcado. Isto quer dizer que uma mesma pessoa, mulher ou homem, mãe ou pai, pode em momentos distintos exercer as funções de mãe e de pai arquetípicas. Até porque todos contemos em potencial todos os arquétipos. Além disso, enfatizo que na regência de um arquétipo pode haver a influência do outro, porém sob o domínio do primeiro. Comecemos então...

As mães sempre reinam antes dos pais. Quando uma criança é concebida, é no útero, alimentada e protegida e ali cresce até um limite, depois rompe com o paraíso do útero e nasce para outro paraíso, o do colo e seios maternos. Ainda é tempo de mãe, de aconchego, de nutrição, de segurança, onde a criança é dominada pelos instintos, havendo um estreito vínculo com a natureza e com o inconsciente. Estamos no mundo do princípio do prazer absoluto que proporciona o estado de onipotência, de ser o tudo da mãe, do paraíso simbiótico, do UM.

Mas a necessidade de crescer permanece e é preciso romper com esse segundo útero, que já não lhe cabe. É chegada a hora do pai.

O pai entra na relação una, cortando-na, dividindo-na em dois, mostrando à criança que para ela conhecer a palavra, a cultura, a civilização, faz-se necessário se despedir do mundo natural e paradisíaco. É o momento do DOIS, onde há a ordem, a lei, as proibições, os limites... os limites entre o mundo natural e o cultural que descola o homem da natureza, transformando-no num ser consciente, consciente do bem e do mal, do feminino e do masculino e de todos os pares de opostos.

Não é nada fácil ser o transmissor da inocência perdida, o apresentador do princípio da realidade, do espírito que se opõe à impulsividade instintiva, o que desfaz a ilusão de plenitude e impõe a lei interditora do incesto e a separação da simbiose mãe-filho. É o pai que nega, priva e frustra.

Mas, por outro lado, é somente através da perda da onipotência, por meio do corte, da lei imposta pelo pai, que a falta é percebida, favorecendo um movimento da criança de tentar preenchê-la, impulsionando-na à criação do mundo cultural. É nesse momento que o pai apesar de castrador, oferece ao filho a possibilidade do poder criativo de gerar algo novo, agora da ordem do TRÊS, do ser autônomo, pronto para romper pela terceira vez com o mundo familiar e ir para o mundo, ganhar a própria vida, e reencontrar a si próprio.

Ser mãe e/ou pai é difícil, e necessita de um olhar constante e incansável para si e para o outro e ainda, de um cuidado diário com a dose: pouco demais, não tem efeito; muito demais, envenena.

Fernanda Matos
Texto publicado na Revista Terceiro Milênio

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