terça-feira, 3 de junho de 2008

A Dança das Mãos. Os olhos que não podem ver.


Maria Fux, certa vez, foi convidada para dar um curso de apenas cinco dias, para cinqüenta pessoas: médicos, psicólogos, assistentes sociais, copistas de Braille, todos profissionais do Serviço Nacional de Reabilitação e Capacitação do Cego, em Buenos Aires. Alguns eram inclusive cegos, mas nenhum tinha experiência corporal.

A porta de entrada para o trabalho com os cegos parecia mais clara, afinal a música eles poderiam escutar. Não caberia com eles, o trabalho com imagens, formas, linhas e cores, mas com os sons, bastaria colocar a música e deixar que espontaneamente o corpo deles criasse movimentos.

Para quem enxerga essa poderia ser uma solução fácil: fecham-se os olhos e abram-se os ouvidos! Quem vê com os olhos, quando adentra um local, tem a memória espacial, mesmo que feche os olhos depois, pois cria uma noção do espaço e, escolhe pontos de referência, com objetivo de assegurar-se de onde está. É muito diferente quando se é cego, o som não é suficiente para lhe dar a segurança espacial que precisa para se movimentar.

Maria Fux escolheu a dedo as músicas e as complementou com a sua própria voz, auxiliando no processo de reconhecimento espacial do ambiente externo, do corpo e do local mais interno, os sentimentos.

Sua voz foi o fio condutor que os direcionou, para num primeiro momento, se postarem ombro a ombro em círculo e delimitarem com o próprio corpo um primeiro maior espaço. Depois, Maria Fux pediu-lhes que sentassem no chão. Colocou-lhes a música Addagio de Bach, e disse-lhes para dançarem com as mãos.

E eles dançaram com as próprias mãos, como se todo o corpo, nelas, se encontrasse. Lentamente, mexiam os dedos e mudavam de intensidade e ritmo, experimentando agora dois novos espaços: o espaço entre a música e o corpo, e o espaço entre o corpo e alma. Em cada movimento, parecia que as emoções eram tocadas pelas mãos!

Maria Fux proporcionou ao grupo dançar com as mãos, os olhos dos que não podem ver ou, para os que enxergam, os olhos daquilo que não se podia ver. Todos, em delicados e pequenos movimentos, com sorrisos nos rostos, expressavam-se minuciosamente na ponta de seus dedos.

Nesse instante, o grupo estava pronto para outro passo: CRESCER. Na condução da voz de Maria Fux, todos, seguros de onde estavam, confiantes, ajudando-se com as mãos começaram a dançar a verticalidade. Seus corpos se elevavam, em movimentos fechados no chão, cada vez mais soltos, descontraídos, alegres, crescidos!

“Creio que os cegos, crianças e adultos, são vítimas não apenas de uma limitação física, mas também dos preconceitos que os rodeiam. Creio que através do movimento, pode se manifestar a capacidade de expressão que há neles... e creio que também é uma ponte para o encontro do cego com o seu corpo” (Maria fux, Dançaterapia, 1982)

A dançaterapia é o dançar para encontrar os nossos guias. As vozes que existem em nós, em nossas mãos; as vozes quem existe em nós, em outras mãos; as vozes que existem no outro, e podem ser nossas mãos-guias.

DANCE, ESCUTE, CONFIE, DÊEM AS MÃOS!

Fernanda Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

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