terça-feira, 3 de junho de 2008

Danças de Martita


A Transformação de uma Alma Consumida pelo Ódio,
Na Pele de uma Menina Consumida, Queimada pelo Fogo

Quando eu comecei a escrever esse texto, encontrava-me ao ar livre, debaixo de árvores muito grandes, grossas, cheias de galhos e folhas que, naquele palco natural, pareciam dançar para mim, como se estivessem soprando nos meus ouvidos alguma ternura... de repente, o vento se fez presente, em sua força, esbravejou colérico, raivoso, feroz, empurrando as folhas das árvores e do meu caderno. Precisei me movimentar e sair para um lugar mais aconchegante. Continuei observado a natureza... algum tempo depois aquele vento arrebatador foi abrandado com uma torrente de chuva... e mais um pouco depois, a dança da natureza se fez completa: um arco-íris apareceu.

É essa, uma outra história vivenciada por Maria Fux. Havia uma menina linda a quem ela dava aula. Havia uma outra menina, irmã da menina linda, que só assistia a aula da irmã. Maria Fux sentia aquele vento colérico, represado nos olhos e no pouco movimento do corpo e da boca da menina, e confessou nunca ter percebido que dimensões poderia atingir um verdadeiro ódio; ódio invejoso por ver a beleza de uma irmã, ódio consumidor por ter a pele do rosto e do corpo, cheia de cicatrizes e manchas vermelhas, queimada de ódio e de fogo.

Por um ano, a menina de pele queimada, acompanhou as aulas da irmã com olhos de dor e rancor...até o dia em que Maria Fux convidou-a para também dançar. A mãe da menina disse que ela não poderia por causa da vergonha do próprio corpo. Movida pelo coração, Maria Fux presenteou a menina com uma malha inteiriça de dança, e ela começou a dançar.

E dançou, no início um pouco tímida, só um pouco. O grupo acolheu a menina, doando confiança, liberdade, espontaneidade, amor, tudo à flor da pele, à flor da dança. Para alegria de todos, aquela que parecia não se mexer, sentada durante um ano assistindo, dançava silenciosamente para si mesma, transformando e rimando dor e amor.

Martita dançava cada vez mais solta e expressiva, seus movimentos suaves e alegres, sorriam sua alma, sua íris... Arco-Íris... cores, paixão... sua pele marcada, marcou a vida de Maria Fux e de quem a assistiu, naquele dia em especial, no seu espetáculo particular: Pela primeira vez, depois do incidente, Martita se viu no espelho, se viu, por fora e por dentro e dançou para si mesma, celebrando a própria vida: Danças de Martita!.

“Nossa querida Martita, que se odiava tanto porque tinha a pele queimada por fora, foi recuperando a sua pele interna através da expressão... sua pele queimada se transformou em movimento.” (Maria fux, Dançaterapia, 1982)

A dançaterapia é o dançar para encontrar o fogo interno, a paixão pela vida. A paixão que existe em nós, em nós mesmos; a paixão que existe em nós, nos outros; e a paixão que existe nos outros, em nós: o fogo que transforma tudo em alimento e vida.

DANCE, QUEIME, TRANSFORME, APAIXONE-SE!


Fernanda  Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

Nenhum comentário:

Postar um comentário