terça-feira, 3 de junho de 2008

Drenagem da Raiva


Quantas vezes eu me perguntei e perguntei aos outros: “O que fazer com a raiva?” Desde muito pequena, aprendi que a raiva era um sentimento feio e que não podia existir. Mas ela sempre existiu em mim e nos outros, porque eu também as sentia num toque mais áspero, num rosnar silencioso de um momento mal humorado, no silêncio amargo da solidão, e até no mastigar, no devorar um chocolate meio-amargo.

Cresci aprendendo que a raiva tem raiva e muita raiva, porque todos insistem que ela não existe, e daí como o fogo em combustão ela se auto-alimenta e queima, queima por dentro até não agüentar mais e explodir, queimando tudo por fora também.

Mas a raiva é persistente, dentro ou fora, ela insiste até que a vejam. Às vezes, a raiva briga com gritos e violência, seja ela física ou psíquica, semelhante a um monte de lenhas colocadas na lareira para pegar mais ainda fogo; Outras vezes, a raiva insegura, rosna baixinho, faz intrigas, ressentida, fica lá junto a algumas cinzas, queimando quase escondida nas brasas, bastando um pouco mais de lenha para queimar “feio”; Algumas outras vezes, a raiva cala com o medo, e no silêncio, se isola, se contém, não como o fogo, mas como gás tóxico aprisionado no recipiente, que com o tempo, se desgasta pela corrosão até a sua explosão e auto-danificação; E ainda, a raiva piedosa do outro, culpa a quem lhe carrega e cobra um preço alto por isso, seja na doença, na tristeza, na comilança, na matança.

Na dança, a história se faz outra: A raiva é convidada para bailar, e é lindo! Porque ela se sente vista, escutada, acolhida, acalmada, diluída, drenada, agora como se a chama fosse chamada a brindar com a água.


“Colocamos as mãos nos lugares em que muitas vezes a raiva se esconde. E com as mãos a arrancamos, como se nos aliviássemos de tudo que é negativo e pode conter nossas raivas, nossos medos, nossas dores.” (Maria fux, Depois da Queda... Dançaterapia!, 2001)


Maria Fux, usando de ritmos africanos e percussão, promove o movimento mais forte e intenso e caloroso, que auxilia a drenagem de tudo aquilo que está fazendo mal ao corpo que dança, a Drenagem da Raiva. Dançando, novas formas vão aparecendo e a raiva, antes ignorada, escondida ou destrutiva, vai sendo transformada com a beleza da música, com a beleza da dança, com a beleza de ser, muito mais do que algo que é feio e não pode existir, algo que é belo porque pode se transfigurar, brilhar, criar, dançar!

A dançaterapia é o dançar para transformar a beleza da raiva que existe em nós e nos outros, que nos faz ser o que somos, o que criamos.

DANCE, PERMITA-SE, TRANSFORME-SE, CRIE!

Fernanda Matos
Publicado na Revista Terceiro Milênio

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