terça-feira, 3 de junho de 2008

Mães com suas filhas, Dançando Juntas!


Ano após ano, Maria Fux escutou das mães que levavam suas filhas as aulas de dança, elogios e comentários como: “Essas aulas me fazem tão bem!” ou “Depois dessa hora de aula tenho outro ânimo e me sinto melhor”. Então, convidou essas mães para participarem com suas filhas da aula e formou um grupo de 10 meninas entre 10 e 15 anos e aquelas mulheres, nomeando o grupo de “mães com suas filhas dançando na mesma aula”.

No início, as mulheres ficaram retraídas em companhia de suas filhas adolescentes, até porque, começavam a perceber que também tinham problemas marcados em seus próprios corpos adormecidos e rígidos. Com a ajuda espontânea das filhas que riam a todo tempo, as mães gradativamente foram relaxando e se descontraindo.

Maria Fux, usando diferentes músicas, pediu ao grupo que, vagarosamente, mexessem seus pés, depois os encostassem nos pés da pessoa ao lado; pediu para que mexessem as mãos e as tocasse nas mãos da pessoa ao lado; repetiram o movimento dos pés e das mãos de olhos fechados e depois, ao invés de trocarem esses movimentos entre mãe e filha, as mães foram encorajadas a fazerem com as outras meninas, o que ajudava no processo de descontração. Ao fim, era pedido que retornassem as duplas mãe-filha, e aí sim, via-se nos olhos de cada díade um novo encontro. E a cada encontro um reencontro.


“Eu agia como uma ponte entre elas. Os contatos corporais, sempre unidos à música, não eram com a própria filha, mas, sim, com a companheira, que começou a ser explorada lentamente, quando nos levantamos com nossas mãos como contatos, apoiando-nos e movendo-nos com a música. ” (Maria fux, Dançaterapia, 1982)


As relações de mães e filhas, principalmente na adolescência, são como um espelho. Por vezes, inconscientemente, o que se olha na outra é o que não consegue ver em si: as mães olham para as qualidades das filhas, numa mistura de saudade, inveja, ressentimento e orgulho; ou olham para os defeitos criticamente e exigentes, cobrando de suas filhas, novas posturas, as quais elas mesmas, nem sempre, conseguiram se fazer. As filhas olham para as qualidades das mães com desejo e/ou com ciúmes e por vezes, provocam competições; ou olham para os defeitos delas, com medo e desprezo. Seja como for, são fases da vida de uma só vida espelhadas na vida da outra e separadas pelo tempo e pelos ruídos na comunicação.

Como num espelho, ao serem colocadas palavras, elas se invertem, e a comunicação pode permanecer dificultada. No entanto, ao se colocarem os movimentos, a dança, os corpos se expressam e se olham, no amor e na dor, e, uma nova linguagem se faz viva, proporcionando o encontro consigo e com o outro.

A dançaterapia é o dançar pelo tempo, onde mãe e filha se encontram. A mãe que existe em nós, filhas; a filha que existe em nós, mães; a filha e a mãe que coexistem em nós, mulheres.

DANCE, ESPELHE-SE, RECONHEÇA-SE!


Fernanda Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

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