terça-feira, 3 de junho de 2008

O que tem Adriana?


UM GRANDE AMOR PELA MÚSICA

Certa vez, chegou ao estúdio o pai de uma menina de uns quinze anos, cabisbaixa e quieta. O pai queria saber se a filha poderia participar dos encontros de dança, pois a menina tinha isso e aquilo... e Maria Fux o interrompeu dizendo que a trouxesse duas vezes por semana ao grupo de adolescentes.

“Tenho como norma evitar que os pais me informem desde o começo qual é a doença de suas crianças – o que poderia influir no meu comportamento – porque eu sempre as aceito, desde esse primeiro momento meu, encontro com elas.” (Maria fux, Dançaterapia, 1982)

Adriana era o nome da menina, que parecia ausente, de corpo distônico e sem controle, sempre estático. Nas primeiras aulas, era como se ela não estivesse lá, exceto em algumas músicas, que o seu formoso rosto, ecoava diferentemente e se fazia acanhadamente presente. Percebido isso, Maria Fux, buscava sempre novas músicas e as usou como ponto de encontro com Adriana. E elas se encontraram na música.

Adriana encontrou bem mais que uma professora, ou uma dançarina, talvez o amor incondicional de uma mulher que gostava de música e de dança. E foi se aproximando vagarosamente de Maria Fux e um pouco do grupo, demonstrando um certo estado de apaixonamento.

Adriana passou a chegar uma hora antes das aulas e perguntar que música que seria colocada, se ela seria linda, lenta ou rápida... Aos poucos seu corpo adormecido foi se movimentando, se reconhecendo através do espelho, se comunicando e sorrindo; sua cabeça cada vez mais erguida.

Passaram-se dez anos, Adriana com vinte e cinco anos, continuava chegando uma hora antes, perguntando se aula seria linda, quais seriam as músicas, dizendo que Maria Fux estava linda... e escutando as músicas, continuava a dançar... suas improvisações incluíam movimentos obsessivos ou monocórdios que antes era incapaz de realizar. Adriana não só adquiriu novos movimentos, mas uma nova linguagem: AMOR.

Quem era Adriana? Uma menina... que tinha... perdido a mãe ao completar um ano de idade... e que tinha... retardamento mental, dislexia, disritmia com problemas motores...

Quem era Adriana? Uma linda e expressiva menina que tinha...

UM GRANDE AMOR PELA MÚSICA!!!

A dançaterapia é o dançar para encontrar o amor, a música. A música que existe em nós, em nós mesmos; a música que existe em nós, no outro; a música que existe no outro, em nós.

ESCOLHA A SUA MÚSICA E DANCE, DANCE E DANCE!


Fernanda Matos
Texto publicado na revista Terceiro Milênio

Nenhum comentário:

Postar um comentário