quarta-feira, 3 de junho de 2009

A viagem de Maria


Uma Experiência de Movimento com Pessoas com Poliomielite


Maria Fux, em suas anDanças, fez um dos mais difíceis espetáculos de sua vida. Aconteceu num hospital com um grupo de pessoas com poliomielite, confinados em pulmões artificiais e cadeira de rodas.

Ela soube que esse grupo tinha encontros com uma musicoterapeuta e uma psicóloga que aspiravam o resgate de vida além das máquinas e da imobilização. Um trabalho muito comovente, o qual Maria Fux sentiu vontade de conhecer e participar com algo seu: sua dança.

Junto aos profissionais, médicos, psicóloga e musicoterapeuta, a bailarina aos poucos se inseriu no cotidiano daquelas pessoas até o dia do seu espetáculo. Era uma tarde muito especial para Maria Fux; ela se apresentaria num corredor de hospital diante de pessoas que não se movimentavam, algumas usariam espelhos para poder acompanhá-la, pois nem a cabeça poderiam mexer.

Como era uma apresentação muito simples e ela estava muito angustiada, Maria Fux resolveu compartilhar tudo desde o início: Mostrou a roupa que a transformaria, vestiu-a e se maquiou na frente de todos e durante essa transformação, comentou sobre os sentimentos que vivia naquele exato momento: falou de seus medos, da necessidade de acolhê-los no corpo, preparando o seu corpo, aquecendo-o, alongando-o, soltando as tensões, até que ele se encontrasse livre para viajar, para dançar, as canções dos vários países que um dia ela viajou. Apresentou o espetáculo como “A Viagem de Maria”

Ao fim da dança, Maria Fux teve a certeza de nunca ter dançado com tanta profundidade e força subterrânea, originadas pelo seu desejo de proporcionar algo que tocasse, como se quase pudesse no toque, promover o movimento que ali estava impossibilitado.

Foi incrível! Surpreendente! Todos começaram a cantar as músicas de muitos países que nunca visitaram, mas que foram tão bem ensaiadas com a musicoterapeuta. O grupo cantava com suas vozes transbordantes de vida e alegria. Enquanto cantavam, Maria dançava, cada vez mais e mais emocionada, a ponto de se atirar no chão e pedir-lhes que parassem de cantar, pois seu corpo não mais podia se mexer, e lhes disse:

-“Vocês ficam com minha dança e eu vou com suas canções.”

Nada semelhante Maria Fux um dia viveu. E ela foi para casa, com as canções daquelas pessoas que não poderiam nunca dançar. Mas deixou sua dança com eles. E dormiu e sonhou. Maria fux sonhou que estava dentro de um pulmão artificial e que seu corpo estava totalmente inerte. Aterrorizada com o sonho, dividiu-o com a equipe do hospital que lhe presenteou dizendo:

- “Todos, que ontem lhe assistiram dançando, sonharam que seus corpos moviam e dançavam.”

“Quanta coisa por fazer! Esse grupo de aparente imobilidade tem zonas de potencial mobilidade e, em seus desejos, o inconsciente estava disposto a realiza-lo.” (Maria fux, Dançaterapia, 1982)

A dançaterapia é o dançar para encontrar o mais íntimo dos desejos do ser. O desejo que existe em nós, em nós mesmos; o desejo que existe em nós, nos outros; e o desejo que existe nos outros, em nós: o desejo de Ser.

DANCE, ENCANTE, SONHE, DESEJE E REALIZE!

Fernanda  Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

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