terça-feira, 20 de abril de 2010

Crianças também se apaixonam!


- Titia, sabia que eu estou namorando o Fulaninho?
- É mesmo minha querida, que bom! E como ele é?
- Ele é legal e bonito. Não sei. Gosto dele.
- E ele gosta de você, minha querida?
- Não sei.
- Ué, mais vocês não estão namorando?
- Eu namoro ele, Tia, mas ele, eu não sei...

Quanta entrega e despreendimento esta menina revela neste diálogo, em sua vivência! Simples conversa que expõe sentimentos verdadeiramente originais, pueris e incondicionais. Simples experiência do fundo de sua essência. Simples existência, viver, pulsar, apaixonar-se...

Lembrei-me de quando, eu era a menina, de uns cinco anos, que gostava do meu vizinho, da mesma idade. Não sabia o porque gostava, não importava nem se ele gostava de mim... Quando o via, minha barriga dava um negocinho, sentia meu coração correr e eu tinha vontade de correr para brincar com ele. Quando não o via, pensava que estávamos juntos, somente juntos, não me lembro o que imaginava estar fazendo, só que estávamos perto um do outro. Gostei dele uns três anos, até que me apaixonei por um coleguinha da escola, pelos dois anos seguintes, nesse tempo já começava a escrever poemas.

Aos 10 anos, me encantei por um outro amigo da escola, nós esperávamos juntos nossos pais chegarem para nos buscarem, adorávamos conversar sobre nossos cães, nossas paixões. Duas crianças falando de paixões, apaixonadas! E quando eu ía para casa, lembro-me de escutar na minha vitrola vermelha, o pequeno disco da pequena Nika Costa, "On my Own". Ela tinha a minha idade e já cantava... Inspirada nela, uma criança, eu escrevia música para ele, uma criança, pensando nele, imaginado estar com ele, e no futuro, casada com ele, com filhos... Eu suspirava... Eu estava apaixonada Sim!

Aos quarenta anos, reconheço meu coração correr quando sinto o desejo de correr para os braços de uma paixão... Sinto vontade de ficar junto, penso nele todo o tempo, escuto músicas e escrevo poemas e outras  "coisitas" a mais... Qual a diferença de quando eu tinha cinco anos? Além das rugas, as outras "coisitas" sexuais... Do resto, a dor na barriga, o coração disparado, a vontade de estar junto e a certeza da paixão, tudo exatamente igual...

Mãe, Tia e Amiga, acompanhando meu filho, minhas sobrinhas e as crianças que estão por perto, posso ver os rostos delas corarem, posso escutar seus corações acelerarem, seus corpos se agitarem, as bocas tagarelando, as exibições ou acanhamentos, os bilhetinhos escondidos, as explosões... Fica nas carinhas lindas a alegria reluzente da paixão. Sentimento livre, espontâneo, sem explicação e sem condição: "Eu gosto dele, namoro ele! Ele? Não sei."

Sem a necessidade de ser correspondida, a paixão, ela invade, não pede licença a razão. Ela acontece, enaltece, energiza, embeleza e fascina! Faz-se presente, e as crianças, grandes sábias, que se apaixonam sim, vivem-na, no Hoje, no Corpo e no Espírito!

E aos adultos que julgam a paixão das crianças como brincadeirinha, como não verdade, dizendo que as mesmas nada sabem, desejo que se desencouraçem, que se encoragem, que liberem seus corações, seus ouvidos e suas visões e escutem o pulsar da vida, nas veias, no sangue, nas emoções, nas "brincadeiras" das crianças, que levam a vida a sério, pois se entregam para ela, pois sentem de tudo, alegria, tristeza, amor, raiva, ciúmes, ternura, amizade, Paixão!

Fernanda  Matos
Para Revista Terceiro Milênio, Coluna Ser o que Se é.

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