quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Criança que enrola para comer... O que falta a ela?


- Juli, come tudo minha querida.
- Mas Pai, eu não gosto de abobrinha... resmunga a menina.
- Deixa é de falar abobrinha, Juli. A gente tem que comer de tudo
- Até do que a gente não gosta? indaga a Juli.
- Até! Responde o pai engrossando o tom da voz.
- Então Pai, a gente tem que comer tudo, tudinho, até do que a gente não gosta? Confirma a menina, num ar pensativo de quem está a elaborar algo bem importante...
- É. Eu já disse! Para de enrolar e coma!
A menina se cala por uns instantes. Mas sabe como é criança de seis anos, às vezes curiosa, inquieta, às vezes audaciosa, e vem a última de Juli:
- Ô Pai, se é assim, que a gente tem que comer de tudo, porque você não come pequi, mesmo não gostando? Pergunta a menina, com certo jogo de cintura, com certo medo de receber uma bronca, no entanto, com a certeza de existir algo incoerente na imposição do pai.
O pai não respondeu nada, porque não há o que responder, só admitir que ou ela está certa e assim, ele terá que passar a comer pequi; ou ele está errado, então ela não precisará mais comer abobrinha. O que você faria?
A questão alimentar é um aspecto da educação infantil muito polêmico e não tem como não vivenciá-lo. Quantas crianças enrolam para comer? Quantas crianças comem em exagero? Quem já não ouviu e/ou disse: Mas antes você comia esse alimento, o que aconteceu agora? (como se o paladar não pudesse mudar nunca...); Você tem que comer para ficar forte! (Não importa como esteja o dia, se muito quente, terrivelmente quente e seco, que arroz e feijão viram uma comida intragável...); Você só come besteiras! (porém, quem faz o supermercado: a criança que come besteiras ou os pais que as compram e as deixam na despensa?).
“Não sei o que deu hoje nesse menino, ele faz para me irritar, está a mais de uma hora na mesa, a comida já está gelada! e porque será que ele ficou tanto tempo na mesa? Era hora dele comer? Ele estava com vontade de comer naquela hora? Ele está agitado com alguma novidade? Ou está triste, chateado? Ou simplesmente comeu muito bem no recreio da escola, afinal era comemoração dos aniversariantes do mês, dia em que o lanche é comunitário e rico em guloseimas? Há efetivo olhar e contextualização de cada dia no presente daquela criança?
Você, adulto, comeu o quê hoje? Comeu muito? Pouco? Seu prato estava bem colorido? Tinha todos os elementos (carboidratos, proteínas, vitaminas etc) bem equilibrados? Você comeu rápido, afinal está ansioso com os últimos acontecimentos no trabalho? Ou nada comeu, por conta dos problemas afetivos que está vivendo na sua relação amorosa? Encheu a barriga de chocolates pelo vazio do término do namoro? Como bem canta Chico Buarque: Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto pra você parar em casa...
A comida está diretamente relacionada com a afetividade, com o fisiológico e com o social. Sem alimento, o corpo não desenvolve; com alimento demais (somado a atividades físicas de menos), o corpo tende a engordar. O comer, na maior parte das culturas, se faz em grupos, só de crianças, só de homens, só de mulheres, ou grupos mistos como na nossa sociedade, e têm rituais distintos em culturas diversas. Quando se quer conquistar uma pessoa, muitas vezes é um belo jantar que se prepara para seduzir. Quando se organiza uma festa de aniversário, o bolo é o predileto do aniversariante. Muitas decisões acontecem em meio aos talhares, pratos, taças e copos num almoço ou jantar especial. E outras tantas ocasiões alimentícias exemplificam a troca de afetos.
Troca de afetos que tem origem na amamentação, quando mãe pega o seu bebê oferta o seu corpo, o seu peito. O bebê, enquanto mama, acaricia o colo, os cabelos da mãe e é acalentado por ela; há troca de olhares, de toques, de vínculos. E quanto maior a disponibilidade daquela que oferece, ou seja, quando a oferta é livre, tanto mais tranquilidade e segurança, o que recebe come e se desenvolve. Então, a demanda fica sempre atendida. Não parece lógico? Oferta livre, demanda atendida.
No entanto, quando o choro de um bebê permanece e a mãe, por diferentes motivos, está impossibilitada de dar livremente (comida ou atenção), começam os problemas alimentares, que perduram em frases na infância como as citadas acima. A pergunta que todo adulto deve se fazer: Se minha criança tem dificuldades em se alimentar, o que falto a ela? Como posso me ofertar livremente?

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/101/matos.php

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