domingo, 10 de outubro de 2010

O que você sente?


Quem nunca se deparou com cenas em que crianças de 9 a 13 anos, meninos e meninas, estão brincando entre si de brigar, de lutinhas? Será que há nestas crianças maior agressividade ou falta de limites? Será a brincadeira de brigas algo arquetípico, primitivo, intrínseco à humanidade? Será algo pertencente apenas ao mundo masculino e as meninas de hoje estão menos femininas? Será que há algo mal compreendido e aceito por trás do contato corpo a corpo que impede do mesmo ser estimulado, para além das briguinhas?
Talvez todas as respostas estejam corretas. No entanto, minhas reflexões pairam intensamente na última questão, por esta ser ainda a que carrega juízos viciados em preconceitos e informações ultrapassadas e vagas; porque deflagra os tabus dentro da nossa própria vivência de adultos ou lembranças de nossas infâncias; afinal, o corpo é ou não é um local sagrado? Podemos não ter casa para morar, mas não ter um corpo, significa não mais viver...
Como lugar sagrado, o corpo requer respeito e deve crescer sendo cuidado e tocado de maneira especial, com amor. No entanto, está tão pervertida esta idéia de toque, de amor, de autocuidado, quanto há pervertidos perigosos soltos por aí ou quanto são desviados os olhares dos adultos diante das trocas corporais mais amorosas entre crianças. Se abraçar é tão gostoso, e crianças pequenas o fazem com toda naturalidade ao verem seus entes queridos ou amigos especiais, por que quando adentram os nove anos o abraço não acontece livremente?
É fato que o bebê recém-nascido conhece o mundo através do peito da mãe, dos colos dos pais e parentes. Na amamentação é percebido o que é prazeroso. Na troca de fraldas, nos banhos, no sol leve da manhã, os bebês vão juntando informações sensoriais e corporais que constroem o arcabouço de julgamentos do que é bom e do que é ruim. Se as interferências fossem menos invasivas ou as menos possíveis, o bebê que conhece o mundo pela boca e depois pelas mãos e, por fim, com todo o corpo, ao completar nove anos ainda teria internamente a referência do que é bom e do que não é, e provavelmente, as lutinhas aconteceriam em momentos de raiva e os abraços sinceros seriam providos da liberdade e da espontaneidade que merecem.
Porém, a educação diz que devemos cumprimentar as pessoas... Quantos de nós não falamos ou ouvimos: Dá um abraço na amiga da mamãe. Seja educado com fulano, dá um beijinho agradecendo o presente. Não fica com raiva, divide o seu brinquedo, e pede desculpas, dá um abraço no seu amiguinho. Frases que se tornam intrusas nos sentimentos proibidos do que não está sendo prazeroso para a criança, para sua alma e seu corpo, mas que por outro lado, não está sendo educado diante do social adulto.
O que gera isso tudo, senão crianças bem educadas e também desconectadas? Se a vontade corporal e emocional de um bebê é de bater no outro bebê que tirou o brinquedo de sua mão, por que ter que ser gentil? Por que não aprender a dizer Não gosto! A distorção do que se sente com o que se faz se instaura. A criança que ficou brava com o roubo do brinquedo deixa para lá, vai brincar de outra coisa e guarda a raiva internamente (claro, não ouve poros para ela escapar). No entanto, num reencontro posterior, numa brincadeira que parecia estar tudo bem entre os dois, a primeira criança bate na outra desproporcionalmente (para aquele instante). Pronto, a raiva foi jogada fora... E os rótulos de agressividade e sem limites e impulsividade aparecem... Assim as crianças crescem...
Expressar sentimentos? Só os de felicidade e harmonia. Mas os de raiva, inveja, ciúmes, tristeza não são dignos da boa educação. O que dirá sentimentos que revelem alguma coisa sexual... Proibido! Aos quarenta anos, quando esses seres passam por alguma virada na vida se perguntam: O que aconteceu comigo? Quem eu sou? Do que eu gosto? Como dizer não sem ser mal educado? O que eu realmente sinto?
Eu pergunto no consultório aos adultos: O que você sente? E eles em sua maioria me respondem o que pensam e me devolvem a pergunta com outra: Mas que sentimentos? Como é difícil pontuar sentimentos... Ensinamos as crianças a dizer desculpas, mas não as ensinamos a dizer estou chateado com você. Difundimos a idéia de gerar paz e não brigar, no entanto, não escutamos como está em conflito o interior da criança, que adoece, porque no corpo doente, ela poderá ser cuidada e poderá sentir ou expurgar os sentimentos indevidos.
Lanço um desafio: passe uma semana, ou mesmo um dia, nomeando a cada vivência o que você sente. E que a falta de tempo para se perceber ou a dificuldade de parar de pensar para sentir não sejam entraves no seu viver...

Fernanda  Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/102/matos.php

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