quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sinceridade pouco educada? Ou educação pouco sincera?


Era um dia especial, o dia de em que Bia aniversariava. Ela estava serelepe e ansiosa pela chegada de seus primos, amiguinhos e presentes. No auge dos seus maduros cinco aninhos, escutava o que os pais diziam sobre o ser mais importante a presença de quem se gosta, do que o presente que se ganha e, muito sábia, respondia que o mais importante era chegarem os presentes com quem se gosta para todos brincarem juntos. Ela queria ganhar bonecas, quebra-cabeças, jogos, patins, e quem sabe até uma bicicleta nova, torcia para que os tios trouxessem brinquedos e não roupas, que não se pode brincar.
Quando a primeira pessoa chegou, a madrinha, ela ganhou a boneca que tanto queria. Era um boneco bebê que falava, fazia xixi, etc. A alegria estampada no rosto da menina, resultou num longo e carinhoso abraço de autêntico agradecimento:
- Dindinha, como você acertou! Obrigada!!!
- De nada Bia, espero que você se divirta muito com o bebê, ainda mais que está grandinha, agora você é a mãe, e que você seja uma boa mamãe para ele. Qual o nome você vai dar?
Antes que Bia pudesse continuar a conversa, chega um coleguinha da escola, ela corre os olhos em direção às mãos do menino que estende os braços e entrega o embrulho. É um quebra-cabeça com uma imagem de dois cachorros deitados na grama, um ao lado do outro. E Bia diz:
- Que lindo! Eu amo cachorros! Obrigada!
E a cada convidado, um novo pacote e expressões, na maioria das vezes de alegria, surpresa, umas mais entusiasmadas, outras nem tanto... Até que adentra no salão a tia “cruela”... os primos em escondido a chamavam assim, pois era uma mulher muito brava. A tia era bem mais velha que todos os tios irmãos, e inclusive não tinha tido filhos, imaginavam as crianças, que era porque ela seria uma péssima mãe. E era mesmo uma pessoa carrancuda e moralista, não tinha tido infância, pois saíra cedo de casa para ajudar no sustento. Virou arrimo da família, até quando não precisava mais, e nunca quis parar de trabalhar. Assim ela conquistara ótimos empregos e riquezas, mas não entendia nada de crianças:
- Bia, meu bebê, como você está fofinha! Você está fazendo uns três aninhos? Ou já está uma mocinha?... – tentava brincar a tia.
- Tia, não sou mais bebê! Sou uma criança de cinco anos! Esqueceu? - responde a menina com olhos grudados na sacola escondida atrás da tia.
- Olha Bia, meu bebê...
- Tia já disse, não sou bebê!
- Bia, minha filha, não responda assim para sua tia. - repreende o pai.
- Mas pai, lembra, já fui promovida! Sou uma criança agora! - Ela se vira para a tia e pergunta: - E o meu presente?
- Que isso filha? Olha o que conversamos, seja uma menina educada! -Briga calmamente o pai com a garota.
- Não tem nada não. – Interrompe a tia. – Aqui está o seu presente, bebê.
Fazendo um barulho parecido com o rosnar de cachorro pequeno, Bia enfim pega o embrulho e rasga o papel, quando vê que é o quebra-cabeça que tinha ganhado no início da festa, dos cachorrinhos, espontaneamente, diz:
- Acabei de ganhar um igualzinho, que pena... – Com a voz um pouco decepcionada, joga o presente no chão e tenta correr para brincar. Tenta, pois o pai a agarra pelos braços:
- Bia, que coisa feia, agradeça a sua tia, e diga que você adorou o presente! Seja uma boa garota! E peça desculpas também!
- Tá bom pai... D e s c u l p a t i t i a, o b r i g a d a, a d o r e i o p r e s e n t e . Posso ir brincar papai?
Bia sai em direção aos amigos, desfazendo as caretas que tinha naturalmente produzido, ao deixar a cena do chato acontecido, com a chata da tia...
Pois é, quantas vezes não educamos os nossos filhos a dizer coisas nada sinceras para evitarem os incômodos com os outros? E o que realmente ensinamos com isso? Que a sinceridade não é educada e a educação pode não ser sincera? Por que insistimos em agradar primeiro os convidados e depois aos nossos próprios filhos? Com essa atitude não estamos passando que os outros são mais importantes que nós, e assim, não estamos contribuindo na distorção da auto-estima? Será que isso não é um péssimo exemplo, a ser contrariamente cobrado lá na adolescência, quando para não desagradar os pais, os adolescentes bem educados, compreendidos das artimanhas das palavras, contam inverdades educadas e escondem os verdadeiros sentimentos e pensamentos?
Prestemos mais atenção! Sejamos mais espontâneos! Sejamos criativos! Afinal a sinceridade “educada” implora por criatividade!

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/104/matos.php

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