quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Esse filme de novo?


Estávamos passando as férias escolares na casa de minha mãe, eu e o meu filho. Acostumada com um tipo de gosto dele, que coincide com o meu, não tinha ainda refletido sobre o porquê de tal apreciação. A avó nos levantou a questão:
- Afinal de contas, por que vocês gostam de assistir um filme mais de uma vez? Mais de três vezes?
- Porque é legal. – Responde o neto.
- Por que é que é legal? – pergunta a avó.
- Porque a primeira vez, eu conheço a história. Daí em diante, as outras vezes, vejo os detalhes. E sempre vejo detalhes diferentes a cada vez diferente que o filme passa. – Responde sabiamente o menino.
Não são apenas os filmes que as crianças gostam de ver centenas de vezes. Quando muitas dormem ao som das vozes de seus pais ou cuidadores contadores, pedem, imploram para lhes narrarem aquela mesma história; insistem ainda mais, se baseadas em fatos reais ou relacionadas com a própria vida da criança ou da família.
Lembro-me, aos seis anos, na casa de minha bisa, dormindo em sua cama de casal, eu sempre a pedia para me contar a história da chegada dela ao Brasil; e se hoje ela estivesse viva, pediria para me descrever mais uma vez. Por que? Porque não me lembro dos detalhes...
Alguns adultos não suportam tal repetição, não assistem filmes ou leem livros mais de uma vez. Talvez, influenciados pela variada oferta nos cinemas e nas prateleiras da livraria, imaginam que irão aprender e conhecer mais se diversificarem. E isso, tem um quê de verdade, mas também não tem. Porque não basta apenas ter muitas informações, mas saber o que fazer com elas. Por outro lado, falta-lhes a contemplação do simples, do pequeno, do detalhe...
Talvez, sejam adultos que também não revêem fatos ocorridos em suas vidas, “o que passou, passou e quem vive de passado é museu”... talvez não viagem para um lugar mais de uma vez, na expectativa de conhecerem todo o mundo. Mas será que nem a música que gostam escutam mais de uma vez? Duvido que não escutem repetidamente. Músicas parecem que são produzidas com a tecla “replay”, além da letra a ser decorada, tem todos os instrumentos a serem escutados, os detalhes...
Também nessas férias, tive a oportunidade de ler o livro de Chico Buarque, Leite Derramado, que é um monólogo de um senhor centenário, contador repetitivo de algumas de suas experiências de vida. O autor, pela voz da personagem, justifica ser memória de velho, que acontece ecoadamente, como numa necessidade de reaviver ou reviver ou rever o que aconteceu e de capturar os detalhes importantes de sua trajetória.
A reflexão que reencontro é que o tempo é uma referência terrena. No mundo aéreo, das viagens, das imagens, das idéias, dos sons, do abstrato, passado e futuro se misturam no presente e nos presenteiam com os detalhes da observação do macro e do micro, à distância e bem perto, da degustação, da aprimoração dos próprios sentidos e sentimentos.
E que todos nós adultos sejamos mais do que pacientes com os pedidos repetidos de nossas crianças, que aprendamos com elas a rever nos filmes das nossas próprias vidas, os nossos detalhes.

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/105/matos.php

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