sexta-feira, 10 de junho de 2011

A Criança e a Escola


“... a criança foi separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena, antes de ser solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio. Começou então um longo processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das prostitutas) que se estenderia até nossos dias, e ao qual se dá o nome de escolarização.” ( Philippe Ariès, História Social da Criança e da Família) Triste começo de nossas escolas... Aliás, triste começo da conceituação do ser criança. Somente há uns cinco séculos, a criança deixou de ser vista como um ser incapaz. Na referência dos adultos, as crianças do século XVII eram paparicadas apenas nos seus primeiros aninhos (um paparicar, que na realidade, assemelhava-se à promoção de uma sobrevivência mais física do que afetiva), depois eram soltas no mundo à própria sorte, passando a serem vistas como adultos inábeis que poderiam vir a ser ou não bons adultos. A criança não era. Poderia ser...
E para que elas atrapalhassem menos os adultos, ou para que elas os ajudassem, era preciso retirá-las das ruas e oferecer a elas comandos politicamente e religiosamente corretos. Como aos operários de fábricas, que produziriam com mais eficiência através de treinamentos rígidos, constantes e imitativos, criar cartilhas e fórmulas, cujos conceitos e valores dos poderosos pudessem ser apreendidos, era a maneira de ofertar ao mundo futuros trabalhadores produtivos.
Entendendo a produtividade como produção em quantidade. Nossa invenção dos robôs começou ali. Infelizmente.
Como ainda hoje, apenas os que conseguem se “rebelar” (é porque são chamados de crianças difíceis e rebeldes), vão traçando caminhos, ou melhor, desvios que os tornam pessoas de pensamentos diferenciados, verdadeiramente críticos. Alguns outros tomam caminhos aparentemente esperados, mais surpreendem no futuro, os que “comem pelas bordas”, silenciosamente, parecem submissos a tal ordem, mas estão maquinando outras saídas, nada descaradas, mais sonsas. Talvez sofram menos que os primeiros. Mas a massa de nossas crianças vai absorvendo valores e modos dos poderosos, ou para obedecê-los, ou para ser tal qual ou pior que eles.
A nossa sorte é que algumas almas que não se derreteram em seus processos educacionais fomentam alternativas de aprendizagem, oferecendo, principalmente através da arte e do esporte, saídas mais vivas, corporalmente mais sinceras, apesar das limitações externas que encontram em suas aplicações. São leves brisas que sopram aos ouvidos infantis verdadeiras “boas novas”.
Eu fico com a desperta pergunta de um menino, já sabedor da resposta, porque no fundo é uma afirmação: - Não é na prática que se aprende? Então, porque ficar numa sala de aula? Muito mais gostoso e mais barato é estar com a família, os amigos, os animais, na natureza, plantando, colhendo e comento da própria terra... Queria eu poder estudar ao ar (,) livre...

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/109/crianca.php

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