quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Escolhendo Desafios


Para algumas pessoas, férias são momentos em que a seriedade da escola fica de “altas”. Não é preciso fazer tarefas, ler textos e livros, estudar determinadas matérias, fazer cálculos, obedecer às regras de convivência, etc. Doce ilusão. Doce mesmo, porque observo que nas férias o aprender é inevitável, todavia, muito mais leve e prazeroso e me arrisco em dizer, mais ainda completo, porque ultrapassa a barreira do teórico e alcança a delícia espontânea do viver.
Experimentamos em família férias bem diferentes. Fomos para outra cultura, outra língua, outra moeda, outra estação. E enquanto o motorista nativo nos levava pelas quarenta fechadíssimas curvas acima, até chegarmos à pousada, tivemos a doce oportunidade de aprender e ver as nossas crianças, naturalmente interessadas, aprendendo, também das coisas de escola que tantas vezes são ofertadas tediosamente.
Olhares curiosos, perguntas infinitas, escuta atenta. ”Quando neva? Quais as árvores que vivem na neve? Quais os animais das montanhas? Os cavalos são muito peludos e pequenos. O que produz este país? O que é cobre? E os mineiros, que estiveram soterrados, continuam vivos? Quem morava aqui no início? O que se costuma comer? Como os carros não deslizam na neve? Como assim correntes? Quem tira a neve do meio das ruas? Como chama o dinheiro? Quanto vale essa moeda em reais? Por que não falam português? Qual o esporte predileto? Qual o time mais famoso de futebol? Quem é o presidente? Por que as crianças estudam das 8h às 15h? Elas gostam? Do que elas brincam? Nossa, a comida é cara... Por que na pousada só tem suco de caixinha? Até que não é caro um boné.” 
Foi uma diversão maravilhosa ver as perguntas variadas das crianças de diversas idades e, dos adultos também. Os questionamentos não pararam, apesar de no meio das brancas montanhas se silenciarem. Era momento da primeira experiência de deslizar pela neve. Amais tímida das crianças esquiou de maneira prudente, deslizando e freando, lentamente. Os atrevidos se arriscavam mais e se levantavam a cada queda, como se a queda (o “erro”) fosse parte integrante do aprender. E é! Quem não sabe disso? Afinal, quem nunca caiu? Porém, admirar no concreto da brincadeira a forma como as crianças caiam cada vez melhor e mais facilmente levantavam, ensinou-me que cair faz parte sim, mas como cair é que se precisa prestar atenção, porque há formas protegidas que necessitamos efetivar em nossa andadura.
De tudo que aprendemos, algo nos marcou profundamente. Uma das crianças, sentindo-se mais segura em descer as montanhas sem um professor, aventurou-se com o tio. A descida foi ótima, mas durante a subida de andarivel, tio e sobrinho caíram. O tio sugeriu voltarem, ou um terço subido, para novamente subirem naquele tipo de teleférico. O sobrinho quis experimentar subir a pé os dois terços finais do caminho. O tio voltou. O sobrinho seguiu, quase certo de sua escolha, curioso por mais uma vivência, desejoso por outra conquista, corajoso e ingênuo diante da dificuldade do desafio que optou.
Para quem na platéia assistia, tias e mãe, a decisão do menino trouxe certa ansiedade. De longe, via-se uma criança carregando seus esquis e bastões no colo, dando passos que afundavam até as canelas na neve, numa altitude de mais ou menos 2.400 metros, cuja respiração era mais dificultada, e a cada dez ou vinte metros caminhados, a criança cansada caia de joelhos, olhando em frente, recuperando fôlego e subindo esperando a escolha que fez. Faltando os dez metros finais, a mãe não resistiu e foi ao encontro do filho. Desceu a montanha e ofereceu ajuda. O menino com os olhos e nariz vermelhos, um olhar exausto, aceitou. A mãe carregou o equipamento de esqui e o menino completou sua jornada.
À noite no jantar, todos compartilharam suas sensações:
“No início tive muito medo de esquiar, mas depois fui me tranqüilizando e descobri que se eu olhasse pra frente, meu corpo ficava mais em pé...” - Falou a criança mais cautelosa.
“Eu não tive medo, e adorei deslizar bem rápido. Quando eu caia, eu levantava e só.”- Afirmou a espoleta e menorzinha das crianças.
“Eu cansei muito.”- Disse o menino.
“Eu te disse meu sobrinho, era melhor voltar e tentar subir pelo andarivel. Você não me escutou e foi teimoso.” – Ensinou o tio.
“Eu te escutei tio. Mas eu escolhi subir. Foi mais difícil que eu imaginava. Mas eu queria conseguir. Eu sabia que eu podia conseguir. E subi. Só que fiquei cansado e é isso.” – ensinou o sobrinho.
Ah, se a vida permitisse termos dez meses de estudiosas férias como estas e dois meses de prazerosa aprendizagem formal na escola...

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/111/escolhendo_desafios.php

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