sábado, 10 de dezembro de 2011

Que Preguiça é essa ?


 Muitos pais reclamam da preguiça de seus filhos, em relação às tarefas escolares e aos cuidados domésticos, independente da idade ou fase de desenvolvimento em que eles se encontrem: “O menino não estuda, fica despistando, é sempre uma confusão, mas na hora de jogar no computador... Minha filha vive na internet, canso de pedir para arrumar o quarto... As notas estão sempre ruins, mesmo com professor particular... Só quer saber de futebol, mas estudar que é bom, nem pensar... Não ajuda nada em casa, está sempre cansado, no entanto, ao se falar em festinhas, está pronto para ir...”

A vilã é a preguiça, coitada, ela é culpada de todos esses males. Eu discordo na maioria das vezes. Acredito sim, que tem aquele dia chuvoso ou insuportavelmente quente, que a cama ou o sofá imploram para não os abandonar. Porém, são poucos esses dias, uma vez que se esteja desfrutando da plena ou da básica saúde física e emocional. Então, concluo que essa forma de acusar a tal preguiça é um modo pejorativo de rotularmos as pessoas, principalmente, as crianças e os adolescentes. Ouso aprimorar o conceito: “Preguiça significa falta de interesse ou falta de prazer em...”

Como sentir prazer em frequentar uma escola com dificuldades de criar e compartilhar horizontalmente o conhecimento do mundo adulto e os valores do mundo infantil? Como estar num ambiente aonde a escuta dos desejos pueris é truncada pelas limitações dos educadores e/ou pelas necessidades de cumprimento das cargas horarias definidas e impostas verticalmente, por um sistema educacional hierárquico e capenga? Como não sentir preguiça diante do jogo dos conteúdos externos e teóricos desprovidos de conexão com o indivíduo e sua história de vida? Como não ter preguiça em ler livros que parecem chatos e foram sugeridos sem um acompanhamento específico e biográfico de quem os produz, por exemplo? Ou como fazer contas matemáticas deslocadas das vivências pessoais do cotidiano?

Percebo claramente a mudança de comportamento das crianças e dos adolescentes, quando eles são envolvidos desde a origem das ideias até a execução de projetos criativos. Vejo os movimentos de seu corpos, antes presos às carteiras. Contemplo sugestões inovadoras, antes copiadas dos livros didáticos. Admiro os feitos ética e naturalmente realizados pelas próprias mãos, os quais desmontam com as expectativas apenas estéticas pré-definidas pelos adultos. E fica nítida a falta da “preguiça”... Há motivação, empolgação, disponibilidade, essas características que tanto desejamos, inclusive para nós (é, porque muitos de nós, nos resignamos em trabalhos que, apesar da preguiça, efetuamos não com muito prazer).

Quando você se deparar com alguém que você julga ser preguiçoso, pergunte-se: O que posso fazer, para tornar mais interessante, para essa pessoa sentir prazer, em fazer esse algo comigo ou para mim? Com certeza sentirá a necessidade de ser uma pessoa mais criativa. Talvez a criatividade não passe de uma nova forma de enxergar a pessoa preguiçosa.  Talvez, seja somente preciso, equalizar as habilidades e as expectativas. As pessoas têm aptidões diferentes, observe, para que a frustação ou condenação não sejam apenas consequências, do seu próprio desejo egoísta, que o outro faça o que você dele espera ou o que você mesmo quer fazer e não consegue, porque está com preguiça ou simplesmente não sente prazer...

Fernanda Matos


Revista Terceiro Milênio
http://www.terceiromilenionline.com.br/artigos/coluna-“ser-o-que-se-e”-que-preguica-e-essa

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