terça-feira, 17 de abril de 2012

Choro de Criança


Foto: contosdiarios.com.br
Passos fortes. Relinchos. Cascos fortes, de um cavalo. Grito, de uma menina. Relinchos. Estalos, de uma porta de ferro... Um cavalo assustado, escoiceando, assustando uma menina, assustando outras crianças, outras pessoas. Estou assustada, numa baia vazia entro e me fecho, lembro-me da minha queda. Os passos fortes do cavalo mostram sua força, relinchos. E a menina, ainda em cima do cavalo, mostra a sua força, gritos. Mais barulhos, outros relincham, outros gritam. A porta grita, estala nas costas da menina, que grita mais forte, porque cai, sentada, batendo na porta, ainda segurando a rédea de um cavalo que fez que caiu, ou sentou e levantou rápido, quase que para acomodar a menina no chão. O Cavalo foge, alguém o pega. A menina assustada fica, a professora corre em sua direção, outra aluna adulta se aproxima e eu, outra aluna adulta, que já caiu do cavalo, chego perto. A menina está se levantando sozinha. A professora diz: - Calma. Não chore. Acalme-se. Onde está doendo?

- CHORA! Chora sim! - Digo eu para aquela criança. – Chora e põe o susto para fora! Abraço a menina por trás dela, faço dos meus joelhos fletidos, apoio para ela se sentar. Ela senta. Enquanto a abraço, sinto seu coração disparado, seu choro assustado. Ouço uma voz falando para a menina: “- Mas também, fulana, você está sem botas...” Reprovo esta voz, peço silêncio, não é hora dos ‘porquês’, é hora de choro e de respiro e de cuidados. Falo baixinho em seus ouvidos: - Chora, tudo bem, pode chorar. – E meu coração em suas costas respira profunda e lentamente, várias vezes. O choro vai diminuindo e se acalmando e os adultos ao redor também. Toco a menina em sua perna, onde reclama doer. Levanto a perna da calça, só um tornozelo ralado, e um coração assustado. Só? Não...

O choro parou. A menina se levantou. A professora a levou, para colocar gelo no machucado. A menina saiu andando, graças aos anjos! Que alívio! Que alívio! Respiro e respiro. Sei que tudo ficará bem! Sei que a menina ainda não sabe disso. Mas em breve saberá!

Sigo meu caminho. Lembro-me que na hora em que caí não chorei, talvez para não assustar meu filho e as crianças que fazem aula comigo. Talvez porque tenha aprendido a não chorar, a me acalmar, a me acalmar... a acreditar que não é nada, só porque os adultos falam e falam porque temem que seja algo maior do que eles. E para quê isso? O choro alivia a pressão. O choro lava a alma assustada. O chorinho é música para um corpo ferido. As lágrimas, benditas águas que deságuam dores e libertam medos, tristezas, frustrações... que ensinam sobre as quedas da vida...

Chora menina. Chora criança. Chora. Chora sim. Até parar de chorar. Por que “depois da tempestade, sempre vem a calmaria”, naturalmente...


Fernanda Matos
Coluna Ser o que Se É...
Revista Terceiro Milênio

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