terça-feira, 3 de junho de 2008

Danças para Letícia.


Maria Fux, bailarina Argentina, estava fazendo mais um espetáculo, e como de costume no final, recebia crianças que queria lhe falar, lhe tocar, como se precisassem fazer isso, para constatarem que aquela formosa bailarina era uma mulher de verdade.


Mas, naquela noite, apareceu à Maria fux, uma linda menina de uns quatro anos, de olhos negros e de tão negros, absorveram os olhos da bailarina. Ao mesmo tempo que a menina a olhava com atenção e curiosidade, deixava transparecer um medo em sua escuridão, em seus olhos negros.

- “Ela está doente?” Perguntou Maria Fux.
- “É surda de nascença” Respondeu a mãe da menina.

Maria Fux ficou muito tocada com aquelas palavras e aqueles olhos e, convidou-as para ir a sua casa, com a intenção de ajudar a menina a dançar, quem sabe se expressar através do corpo.

Os pais muito feridos reafirmavam que a menina era surda. Maria Fux, repleta de um muda fé, ou uma muda de fé, com amor, vontade e intuição, acreditou e fez! Durante seis meses dançou no silêncio da menina e dançou para menina. Seu novo e particular “Espetáculo”, batizou-o de “DANÇAS PARA LETÍCIA”.

No início, Maria Fux era retribuída com gritos e gemidos de Letícia e, passava suas noites, em seus quase-silêncios e angústias e desejos de se misturar com a menina e trocar uma nova forma de comunicação. Porém, Maria Fux também sabia que a menina gostava dela, é que apenas ela não sabia o que fazer...

Ambas continuaram tentando juntas se comunicar até o dia que a irmãzinha de Letícia nasceu e, Maria Fux dançou para Letícia como se estivesse embalando um neném. Foi nesse momento que compreenderam ou que concretizaram a compreensão da nova linguagem não-verbal. Ambas dançaram o embalar de uma nova vida, a vida da irmã, mas principalmente a vida de Letícia.

Nascida num silêncio completo, que para quem escuta não consegue nem imaginar, afinal quando se faz silêncio para quem ouve, ainda restam as memórias dos sons; para Letícia, escutar usando não os ouvidos e nem as notas musicais, mas simplesmente os movimentos do corpo, do seu e do outro, isso é que ESPETÀCULO!

E Letícia, hoje, Mulher feita é bailarina, “continua dançando no estúdio de Maria Fux e faz parte de outros espetáculos juntamente com bailarinas que ouvem e que não ouvem e, sobretudo, é um ser a quem a dançaterapia deu um acervo de expressão e conhecimento corporal que, de outra maneira, não teria podido encontrar para chegar a seu equilíbrio.” (Maria fux, Dançaterapia, 1982, Summus Editorial)

A dançaterapia é o dançar para encontrar o amor. O amor que existe em nós, em nós mesmos; o amor que existe em nós, nos outros; e o amor que existe nos outros, em nós.

Dance, movimente-se, crie e Ame!

Fernanda Matos
Texto Publicado na Revista Terceiro Milênio

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