domingo, 10 de abril de 2011

Música nas Veias


Há algum tempo, tive a sorte de ver um grupo de crianças mostrando um trabalho de música na escola. Parece-me que foram meses ensaiando quatro músicas de estilos diferentes. Algumas crianças tocavam flauta, outras cantavam, outras mexiam a boca silenciosamente e eu, na platéia, sentia falta de algo, mas não sabia dizer o quê. A primeira música cantada, A Noite do Meu Bem, da profunda Dolores Duran, marcava a apresentação com ares de melancolia e calmaria. A segunda, mais feliz, ainda calma, Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro. A terceira música atraiu mais a platéia, Atraente, chorinho famoso de Chiquinha Gonzaga. Por último, uma música africana, num ritmo bem marcante, animada, pulsante, que eu desconhecia e, infelizmente, não gravei o nome.
O que faltava no show ficou mais nítido para mim na última música. As crianças estavam bem ensaiadas, mesmo as que não soltaram a voz, mas não tinham incorporado as músicas que cantavam, pois, num ritmo mais batucado, o corpo delas permanecia parado. Como? Eu não sei, afinal, quando uma música nos entra na alma, adentra as veias, contaminando todas as células, e nem que sejam as pontas dos dedos envergonhados, percebe-se eles balançando.
Definitivamente, não compreendo o que acontece no nosso ensino escolar. Será que não é expressivo, nem na aula de música, que a aprendizagem precisa ter ecos internos? Que os alunos exalarão vida ao reconhecerem a afinidade do meio externo com o interior deles? E que o contrário não passa de tentativas frustrantes de encenações? Cópias e não as autênticas, as originais apresentações que todos desejam?
Ontem, noutra escola, noutro grupo de crianças, com outro professor, assisti a um dos ensaios de uma peça musical. No início, a eterna expectativa de ser surpreendida; no fim, o mesmo temor: o que estamos fazendo com os processos criativos e educacionais, nas escolas e em casa?
Formar é muito mais do que informar. É proporcionar espaços diferentes, móveis, flexíveis, a fim de que as formas sejam desenhadas continuamente. Formar não é “enformar”, colocar num lugar rígido, com dimensões fechadas, como uma forma de bolo. Aliás, educar não tem receita. Ouso dizer, que os grandes chefes, que têm o cozinhar na alma, incorporado nas mãos, no nariz e na ponta da língua, transpirando saúde pelo corpo, afirmariam que nenhum bolo é igual ao outro.
Então, ontem na platéia, fiquei com vontade de levantar e me juntar às crianças que também estavam sentadas. Fazer todas ficarem em pé e dançarem, ao menos com um pé, o xote que cantavam. Porém, meus pés retraídos, continuaram calados e escondidos debaixo da cadeira. Por quê? Por que eu não me levantei e dancei aquela gostosa música, ali no meu lugar? Por quê? Não sei... Hábito de me aprisionar em regras
pré-inventadas, por sei lá quem... Falta de confiança em inovar e não seguir as receitas tradicionais... Falta de SER O QUE SE É...

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/108/matos.php

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