quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Menino e o Brinquedo


O dia acorda. O sol acorda determinado a brilhar forte. É sábado. A mãe acorda. Não há tempo para preguiça. Segue para sala, diante da pilha de roupas a passar. Passa a vestimenta branca com todo esmero. Desliga o ferro. Pega a cera, faz brilhar as botas pretas com todo capricho. Desce para cozinha. Espreme laranjas, faz suco. Prepara pães com manteiga. Descasca mexerica. Sobe para os quartos. Cutuca o filho. Bom dia. O menino acorda diferente, bem humorado e disposto. É sábado. Uma manhã determinada, diferente, um dia especial: a Competição.
Mãe e filhos prontos entram no carro e se dirigem para o local, uns trinta quilômetros de casa. Na travessia, conversam sobre o momento a ser vivido em breve.
- Mãe, e se o Brinquedo fugir mais uma vez?
- Senta nele! Firma as pernas, não briga com ele, conversa com ele. Aliás, conversa com ele, assim que chegarmos. Fala o que você quer e o que espera viver nessa manhã. Propõe brincarem juntos e se divertirem. Fala para ele, que se ele foge, a brincadeira acaba. E você fica triste. Ele também.
- Certo. Mas, e se, ele refugar, chegar ao obstáculo e desviar.
- Fique firme, prenda suas pernas nele e tenta de novo.
- Sim, mas daí, perco pontos.
- É verdade filho, mas o que você quer com a competição?
- Ora mãe, eu quero ganhar.
- Ganhar o quê, filho? Medalha? Experiência? Divertimento? Filho, eu sei que é bom ganhar! É muito bom! Mas quando não chega a medalha se ganha outras coisas. Você sabe, o Brinquedo não está na melhor fase dele. Então se você quer ganhar medalhas, talvez seja melhor mudar dele.
- De jeito nenhum! Eu amo meu cavalo! Eu amo o Brinquedo!
- Então filho, pegue a sua espada invisível, sua capa invisível, monte no seu cavalo e galope e salte com determinação. Viva com ele o que juntos têm a aprender!
Mãe e filho chegam à hípica. O menino desce do carro, segue em busca de seu cavalo. Cadê o Brinquedo? Ainda a caminho... O instrutor chama o menino. Reconhecimento de pista, do percurso da prova. O Brinquedo chega. O menino conversa e acarinha seu cavalo. Monta nele. Seguem para o aquecimento juntos. Estão bem. Nada de fugas e refugos. Excelente treino. Padoque para o menino e o Brinquedo. São chamados. Começa a prova deles. São onze obstáculos. O primeiro, o segundo, o terceiro: saltam tranqüilos... Vê-se no rosto do menino outra expressão. Concentração. Confiança. Equilíbrio. Vê-se no rosto do Brinquedo, brincadeira, esperteza... O quarto obstáculo, perto do portão, é convite para a fuga: O menino segura mais forte o cavalo, mostra o chicote para ele, dá umas broncas. Ufa. Deu certo. Quinto obstáculo, tudo se acalma. O sexto é inclinado. A curva precisa ser mais redonda, para entrarem bem no meio, equilibrados. Oh, não, não! Mas para direita, puxa mais as rédeas. Ai... O sexto não foi pulado. Laço. Falta. Menos quatro pontos. E o menino, guerreiro, continuou, encurtou as rédeas, firmou as pernas, gritou com seu Brinquedo, mostrou o chicote, e, uau, pularam! Sem derrubar barras! Sétimo pulo, oitavo, nono. Menino firme, decidido, com olhar reto, focado no objetivo de terminar o percurso proposto. Décimo, décimo primeiro salto, fim da prova. Linda apresentação. Um cavalo teimoso e um menino persistente. Aplausos de todos os lados. A mãe corre em direção ao filho e fala:
- Bela competição meu querido! Parabéns! Como você está?
- É mãe, foi uma ótima prova, dei um jeito nas brincadeiras do Brinquedo. Estou muito bem. Um pouco cansado. Usei muito as pernas e os braços...
Outros competidores fazem seus percursos. A competição acaba. Resultado: O menino e seu Brinquedo, mesmo apesar da falta, chegam em décimo lugar, ganham uma inesperada medalha... Medalha? Presente dado à tia do menino, aniversariante daquele dia, que o assistia com todo amor e orgulho, como a mãe e o pai e todos os outros parentes e amigos do menino. As pessoas vinham abraçá-lo, emocionadas, todas falavam:
- Quanta Determinação! Parabéns! É isso aí!

Fernanda Matos

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