quinta-feira, 10 de março de 2011

Palavras Mágicas


Na educação moderna, onde um dos quesitos é ser consciente do papel de educador, para além do autoritário sistema tradicional de criação, usufruindo-se do leve lúdico ensinar-aprender, o que dantes era repetido impositivamente como “Seja bem educado!”, agora, faz-se de maneira disfarçadamente democrática, dizendo-se “Cadê as palavras mágicas?”. Como se a magia das palavras estivesse na educação socialmente estabelecida.
Estas palavras mágicas podem ser classificadas em três grupos distintos:
1) Do Desejo, do pedir: “Por favor,”
2) Do Agradecimento: “Muito obrigada,”
3) Do Arrependimento: “Desculpas,”
É incrível o poder destas palavras. Crianças que as aprendem ganham lugares especiais nas relações com adultos. São vistas como criaturas boazinhas, do bem, delicadas... “bem educadas!”... Eu também, por vezes, rendo-me ao encanto destes serzinhos graciosos com fala macia, boca limpa, que soltam feitiços no ar, seduzindo a todos, ou quase todos. Porque tem outros momentos, que ao invés de me render a estas tentações, eu percebo grandes perigos por trás deste comportamento: a manipulação, a repressão, a hipocrisia.
Crianças que precisam seguir estas lúdicas regras, podem se tornar grandes conhecedores do desejo social do outro, e por outro lado podem se esquecer, reprimir ou dissimular o próprio desejo. Seja como for, a sinceridade vai ficando para trás em nome dos bons comportamentos, como se a honestidade não fosse um dos melhores valores que o ser humano devesse trocar.
Uma vez que a franqueza não pode superar o poder das tais palavras mágicas, as crianças que, antes confiavam na beleza do mundo e nos ditos das pessoas ao seu redor, vão crescendo e adquirido o poder “sobrenatural” do desconfiar. Uma pena, não é? Lamento muito esse caminho que parece impossível não trilhar: “Não confie em tudo que te dizem, ou não confie em tudo que escutas...”
Apesar dos pesares, gosto mesmo de repetir uma história que um pai me contou, que é mais ou menos assim:
Estavam pai e filho, um menino de três anos, na piscina e mais outras pessoas, dentre elas uma mulher meio perua tomando sol. Aproximou-se deles, talvez com o intuito de cantar o recém-divorciado pai, e falou para o guri:
- Que bebê mais lindo... – disse inclinando-se para tocá-lo.
- Eu não sou mais bebê. – Respondeu o menino afastando seu pequeno, determinado e sábio corpinho.
- Ah, claro que é, olha o seu tamanho, ainda é um bebê sim! – insistiu a mulher.
- Não sou! Já fui promovido, sou uma criança! – retrucou sério e muito incomodado.
Todos riram com as palavras que o garoto usou. O tempo passou. Pai e filho se divertindo na piscina e a perua peruando perto, contando o episódio para os que chegavam e se referindo ao menino ainda como bebê. O menino é claro que escutava os burburinhos e não gostava nada. Era chegada a hora da partida dos dois. O pai muito educado e polido despede-se de cada pessoa, inclusive da mulher, e “educa” o filho, propondo o mesmo:
- Diz “tchau” para fulana, meu filho.
Ela, intrometida, diz primeiro:
- “Tchau” bebê, você é lindo mesmo!
O garoto, que é lindo mesmo, conhecedor de seu desejo de ser respeitado como criança e, ouso dizer, sabedor do tipo de pessoa que era aquela mulher, responde mais que certeiro,
- “Tchau” sua bruxa!
Palavras mágicas são as poderosas palavras vindas do coração com a autenticidade da emoção, sejam do pedir, do agradecer, do se desculpar, ou do se defender ou do opinar.

Fernanda Matos
http://www.terceiromilenionline.com.br/107/matos.php

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